Agricultura regenerativa: realidade atual ou futuro distante?

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Quando falamos em agricultura regenerativa, pode parecer algo muito distante da nossa realidade, e para muitos, soa até como inalcançável. Mas vamos lhe mostrar que muitas práticas já adotadas na agricultura são parte dos princípios básicos da agricultura regenerativa e nos coloca no caminho da reconstrução da biodiversidade e da qualidade do solo. Vamos entender como isso acontece?

Mas, afinal, o que é a agricultura regenerativa?

A agricultura regenerativa é um conceito que foi desenvolvido nos anos 80, pelo americano Robert Rodale. É um conceito ligado à possibilidade de produzir recuperando os solos e a biodiversidade, levando em conta também aspectos econômicos, éticos e sociais.

Um dos pontos fortes da agricultura regenerativa é a valorização dos microrganismos presentes no solo e o reestabelecimento dessa atividade microbiana para manutenção do equilíbrio. Por isso, nesse formato de agricultura há uma grande utilização de biofertilizantes e técnicas que aumentem a variedade de microrganismos e a atividade microbiológica no solo.

Além disso, a agricultura regenerativa busca produzir alimento, sequestrando mais CO2 , aumentando a biodiversidade e regenerando solos em ambientes produtivos e saudáveis. Ao mesmo tempo, este formato de agricultura aumenta a renda dos agricultores por conta do retorno ao equilíbrio do sistema e melhora as condições locais por conta de uma produção mais estável. E é nesse ponto que pode-se dizer que a agricultura regenerativa contribui para 9 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas – ONU.

Mas neste momento você pode estar se perguntando: mas então qual a diferença entre a agricultura regenerativa, a produção orgânica e os sistemas agroflorestais, por exemplo? E é também isso que vamos esclarecer neste artigo. Continue sua leitura.

Dúvida entre conceitos

Você ainda deve estar confuso sobre os inúmeros conceitos que permeiam esse assunto, como: sustentabilidade, orgânico, agrofloresta, agricultura regenerativa… Não é mesmo?

Então vamos lá.

A agricultura regenerativa busca repor o que foi explorado, reconstituir aquilo que foi perdido e maximizar o impacto positivo. Enquanto a sustentabilidade diz respeito a neutralizar o impacto gerado no passado e cuidar da manutenção do equilíbrio.

Já o sistema agroflorestal e a produção orgânica são práticas que podem fazer parte da agricultura regenerativa, estão no “guarda-chuva” deste tipo de agricultura. Além destas, outras práticas como agroecologia, agricultura sintrópica, por exemplo, são englobadas pelo termo agricultura regenerativa. São diversas práticas que somadas geram o resultado esperado da recuperação da biodiversidade e da saúde do solo, além de aumentar a captura de carbono e criar benefícios duradouros para o ambiente.

Quais os princípios da agricultura regenerativa?

Há diversos princípios básicos que norteiam o conceito e a prática da agricultura regenerativa. Além das práticas já adotadas na agricultura orgânica, este formato ainda prioriza as práticas de saúde do solo e gestão da terra para manutenção da biodiversidade. Por conta disso, alguns desses princípios são:

  • Rotação de culturas ou cultivo sucessivo de mais de uma planta na mesma área;
  • Adoção de plantas de cobertura;
  • Redução de arado no solo;
  • Diminuição do uso de fertilizantes e defensivos;
  • Promoção do bem-estar animal e práticas justas de trabalho para os agricultores.
  • Manutenção do solo coberto o ano todo, para que a terra não fique em pousio durante as entressafras, o que ajuda a evitar a erosão do solo;
  • Promoção do pastejo do gado, que estimula naturalmente o crescimento das plantas; entre outros.

E é quando observamos esses princípios que identificamos diversas práticas já utilizadas que podem atender algumas destas características da agricultura regenerativa. Veja a seguir.

Quais dessas práticas os agricultores já têm adotado em campo?

Práticas ligadas ao conceito de agricultura regenerativa têm sido cada vez mais adotadas por produtores, inclusive aqueles que costumavam trabalhar com uma agricultura totalmente convencional. Afinal, esses mesmos produtores têm identificado que quanto mais equilibrado está o sistema, maior o retorno financeiro e ambiental alcançado. Investir em práticas de regeneração é uma via de mão dupla onde todo mundo sai ganhando, e não tem por que os produtores não buscarem essas estratégias para contribuir com uma produção mais consciente e rentável. Agricultores e empresas inteligentes estão abrindo os olhos para o poder que há nas práticas regenerativas.

Então, te convido aqui a fazer uma reflexão: quais práticas da agricultura moderna você acredita que atendem alguns princípios da agricultura regenerativa?

Muito provavelmente vieram à sua cabeça termos como: plantio direto, rotação de culturas, plantas de cobertura, Integração Lavoura-Pecuária-Floresta – ILPF, utilização de biofertilizantes, controle biológico e/ou Manejo Integrado de Pragas – MIP. E é sobre essas práticas que vamos falar aqui.

O plantio direto, por exemplo, é uma prática consolidada no Brasil, que permite a produção com mínimo revolvimento do solo, reduzindo a emissão de gás carbônico para a atmosfera, além da manutenção da riqueza microbiana no solo, manutenção da umidade do solo, aumento da infiltração de água e mais estruturação do solo, com menor risco de processos erosivos. É uma prática que oferece inúmeros benefícios e já é amplamente difundida na agricultura brasileira, porque os produtores entenderam quantos benefícios essa prática oferece para o sistema produtivo.

Juntamente ao plantio direto, observamos práticas como a utilização de plantas de cobertura para não deixar o solo descoberto durante certo período do ano. Isso também promove uma maior produção de palhada que favorecerá o plantio direto. E aqui a prática de rotação de culturas também se torna importante por gerar uma mudança no sistema, uma “quebra” de ciclo das pragas e doenças, e uma maior sustentabilidade ao sistema produtivo.

Outro modelo que tem sido amplamente utilizado no Brasil é o sistema de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, conhecido como ILPF. Nesse modelo, o produtor consegue otimizar área, recursos, mão de obra, insumos e tempo, produzindo madeira, carne, grãos, e até energia em um mesmo espaço, de forma consorciada, como uma simbiose onde todos ganham e o resultado contribui para o bem geral, pois o produtor também constrói uma diversidade produtiva que permite com que ele tenha diferentes fontes de renda, obtendo mais segurança frente às grandes variações do mercado. Além disso, há uma significativa redução de gases do efeito estufa e alta taxa de sequestro de carbono da atmosfera.

Sobre o ILPF, um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) aponta uma série de benefícios ao sistema, entre os quais o aumento da produção de grãos, fibras, carne, leite e produtos madeireiros e não madeireiros; a geração de empregos diretos e indiretos; a melhoria do bem-estar animal graças ao conforto térmico; a manutenção da biodiversidade e a sustentabilidade da agropecuária e, de quebra, a redução da pressão por área desmatada para implantação de pastagens ou lavouras.

Outro aspecto super importante é o controle biológico de pragas que é um dos pilares do Manejo Integrado de Pragas (MIP). Dentro deste formato de manejo, o produtor acompanha a lavoura/área produtiva, fazendo monitoramentos frequentes que permitem a identificação do nível de controle daquela praga para tomada de decisão mais assertiva. Com esse método, cada caso é um caso e o manejo químico passa a ser apenas uma ferramenta do manejo como um todo, deixando de ser usado de forma desordenada e única.

O que ganhamos com isso?

Todas essas práticas acima elencadas, contribuem para que os agricultores resgatem a saúde dos solos, reestabeleçam o equilíbrio do sistema produtivo e aumentem a produtividade de forma consciente e diversificada.

Ganha o produtor com mais sustentabilidade e lucratividade do sistema produtivo. Ganha a sociedade como um todo que terá acesso a alimentos produzidos de forma mais consciente. Ganha o meio ambiente que estará sendo constantemente reestabelecido com a promoção do retorno ao equilíbrio. Por conta de todos esses aspectos, é preciso entender que diversos princípios da agricultura regenerativa vêm para contribuir com a agricultura moderna para que seja uma produção mais assertiva, lucrativa e consciente, que garanta a segurança alimentar e a segurança do alimento.

Além disso, é importante ressaltar que há também parte da produção que tenderá a executar todos os princípios da agricultura regenerativa “ao pé da letra”, buscar uma certificação (ainda em desenvolvimento para este modelo de agricultura) a fim de produzir um alimento saudável e que atenda aqueles consumidores que busquem esse alimento diferenciado, com maior valor agregado, também por conta do maior custo de produção. Fato é que há duas vertentes distintas: uma agricultura tipicamente regenerativa; e uma agricultura convencional com a adoção de diversos (mas não todos) princípios dessa agricultura regenerativa, e isso é extremamente positivo, porque promove uma diversidade produtiva, de pensamento e uma liberdade de escolha. E é aí que todos saem ganhando: todos nós e também o meio ambiente.

Fontes de pesquisa: Forbes, Um Só Planeta, ECycle, Exame, CI Orgânicos, CropLife Brasil

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